domingo, março 15, 2009

O que é ser goiano

Ser goiano é carregar uma tristeza telúrica num coração aberto de sorrisos; é ser dócil e falante, impetuoso e tímido. É dar uma galinha para não entrar na briga e um nelore para não sair dela. É amar o passado, a história, as tradições, sem desprezar o moderno. É ter latifúndio, e viver simplório, comer pequi, guariroba, galinhada e feijoada, e não estar nem aí para os pratos de fora. Ser goiano é saber perder um pedaço de terra para Minas, mas não perder o direito de dizer também 'uai', 'este negócio', 'este trem', quando as palavras se atropelam no caminho da imaginação.
O goiano da gema vive na cidade com um carro-de-boi, cantando na memória. Ser goiano é ir à Trindade todos os anos, cumprindo promessas, na Festa do Divino e na Festa de Nossa Senhora do Muquém. Acredita na panela cheia, mesmo quando a refeição é abobrinha e quiabo. Lê poemas de Cora Coralina e sente-se na eterna juventude. Ser goiano é saber cantar música caipira e conversar com Beethoven, Chopin, Tchaikovsky e Carlos Gomes. É acreditar no sertão como um ser tão próximo, tão dentro da alma. É carregar um eterno monjolo no coração e ouvir um berrante tocando longe, bem perto do sentimento.
Ser goiano é possuir um roçado e sentir-se um plantador de soja, tal o amor à terra que lhe acaricia os pés. É dar um tapinha nas costas do amigo, mesmo quando esse amigo já lhe passou uma rasteira.
O goiano de pé-rachado não despreza uma pamonha, e teima em dizer 'ei, trem bão!'; ao ver a felicidade passar na janela, exclama 'viche!', quando se assusta com a presença dela.
Ser goiano é botar nos pés uma botina rangedeira e dirigir tratores pelas ruas da cidade. É beber caipirinha com tira-gosto a tarde, com a cerveja na eterna saideira. É fabricar rapadura, ter um passo-preto nos olhos e um santo por devoção.
O goiano histórico sabe que o Araguaia não passa de um 'corgo', tal familiaridade com os rios. Vive em palacetes e se exila nos botecos da esquina. Chupa jabuticaba, come bolo de arroz e toma licor de jenipapo. É machista, mas deixa que a mulher tome conta da casa.
O bom goiano aceita a divisão do Estado, por entender que a alma goiana permanece eterna na saga do Tocantins.
Ser goiano é saber fundar cidades. É pisar no Universo sem tirar os pés deste chão parado. É cultivar a goianidade como herança maior. É ser justo, honesto, religioso e amante da liberdade.
Brasília em terras goianas é gesto de doação, é patriotismo. Simboliza poder. Mas o goiano não sai por aí contando vantagem.
Ser goiano é olhar para a lua e sonhar, pensar que é queijo e continuar sonhando, pois entre o queijo e o beijo, a solução goiana é uma rima.
José Mendonça Teles In: Crônicas de Goiânia

3 comentários:

Juliana Marton disse...

que crônica linda. muitíssimo adequada. ;D

Violeta Vênus disse...

Depois dessa quero ser goiana mais ainda. Felicidades terrinha.

Violeta Vênus disse...

Depois dessa quero ser goiana mais ainda. Felicidades terrinha.